Dores no Paraíso
25/05/2005
Quando no início de 2005 pedalando com uma mountain bike consegui terminar o Triathlon Internacional de Santos com o tempo de 2:44 estava orgulhoso de mim, já podia olhar o Oscar Galindez de igual para igual, convidar o Armando Barcellos para tomar um suco de açaí com guaraná em pó, chamar o Fred Monteiro de parceiro, o Miyasiro de meu brother e o Olaf Sabatschus (bicampeão do Ironman Brasil) de sabatina.
Era apenas a minha segunda experiência em triathlons
Todas estas imagens e lembranças vieram à mente naquele espaço de tempo em que você olha para o relógio, falta apenas um minuto para a largada e neste intervalo entre o presente e o futuro, a vida inteira se comprime em 60 segundos e você se recorda de imagens, pensamentos e sensações que julgava esquecidos.
O sol nascendo atrás das montanhas catarinenses foi algo como um efeito especial cinematográfico encomendado para aquele mega evento.
A natação teve uma única largada, os atletas de elite largaram cinco metros à frente dos demais competidores. O percurso na natação foi disputado em quatro frações de 950 metros, em formato de "M". Após a etapa de natação, os atletas deveriam se deslocar para a tenda onde estavam as bolsas com o material para o ciclismo. Esta tenda tem espaço reservado para os homens e mulheres. No Congresso Técnico entendi que os atletas tirariam suas roupas de borracha na tenda. Tive câimbras após a última bóia na natação. Quando saí da água quase duas horas depois(1:58:00), absurdamente feliz por ter conseguido terminar a natação antes do tempo máximo previsto, corri em direção à tenda.
Alguns staffs não estavam no interior da tenda, mas sim na área de transição das bikes. Antes que pudesse dizer algo, jogaram-me ao chão e arrancaram minha roupa de neoprene.
Uma das grandes preocupações dos atletas que fazem provas de endurance como o Ironman é efetivamente o risco de bolhas e assaduras. Prevendo a possibilidade de que isto acontecesse, não quis correr de sunga e preferi colocar uma cueca sem costuras. Não pensei que pudesse ser desnudado diante do público. Eu estava lá, cansado e de cuecas diante de um público de cerca de 2mil pessoas, por sorte era uma cueca preta, discreta, comportada e limpinha.
Fiquei com medo de ser desclassificado por atentado violento ao pudor e ser conduzido à delegacia mais próxima.
Nada disto aconteceu e pude seguir adiante pedalando pelas ruas, avenidas e estradas de Florianópolis. Na área de transição para pegar as bikes, quase não havia mais bikes pois quase todos os atletas já haviam terminado a natação. Eu era um dos últimos, já estava acostumado com isto, de forma que não fiquei com vergonha e tampouco tive que me preocupar com o resgate do meu amor próprio ou algo assim.
Era o dia do meu aniversário, estar ali e poder concluir a prova era, sobretudo um capricho meu, uma forma diferente de comemorar meus 42 anos com um corpinho de 41.
Eu estava feliz e absurdamente cansado, a natação havia acabado comigo.
Após ultrapassar o túnel em direção ao Aeroporto, com cerca de 40km de bike completados, comecei a desenvolver uma maior velocidade, sem sentir nenhum tipo de desgaste via o odômetro marcando 33, 35, 38, 40, 42.
Fiquei surpreso com a minha performance e passei a acreditar na possibilidade de que talvez fosse possível completar o trecho da bike em 06:30. Estava assim, envolto em uma absurda aura de otimismo e positividade quando cheguei ao trecho em que os ciclistas deveriam retornar em direção ao túnel novamente para depois seguir à praia de Jurerê e percorrer outros 90 km.
Ali é que efetivamente me dei conta de que um forte vento havia sido responsável por aquela minha repentina e improvável performance admirável.
No exato momento em que fiz o retorno, o odômetro passou a marcar 25, 23, 21, 19, 18, ainda que me esforçasse para tentar imprimir um ritmo mais veloz. Estava de volta à realidade, não era a realidade que queria naquele momento, mas era a única que me pertencia e guiava meu caminho. Desde a última bóia da natação tentava administrar as câimbras. Próximo ao Centro, na avenida Beiramar Norte, senti uma fisgada e como em uma coreografia arduamente ensaiada, senti insuportáveis câimbras nas duas pernas. Parei de imediato a bike, soltei a sapatilha da trava e ali fiquei em pé sem ao menos conseguir erguer a perna e sentar na calçada.
Comecei a chorar, não sei se chorava por passar a acreditar que não iria conseguir terminar a prova, pelas horríveis dores ou por pensar nos U$ 300 dólares que havia pago pela inscrição.
Ao longe pude ver dois policiais se aproximando lentamente enquanto inúmeros ciclistas que eu ultrapassara depois de um enorme sacrifício, passavam por mim e gritavam palavras de incentivo.
- Você está bem? - perguntou-me o policial.
Tive vontade de responder:
- Claro, estou ótimo, eu normalmente fico assim gritando e chorando de dor.
Contive meu impulso e apenas falei das dores que estava sentindo.
- Você quer que eu chame uma ambulância?-perguntou-me.
- Não, hoje é meu aniversário e eu vou completar a prova nem que seja o último a chegar.
- Verdade? Parabéns! Hoje estou fazendo cinco anos de casado.-disse-me sorrindo.
- Já tenho mais um motivo para completar a prova.
Ambos sorrimos, logo chegou uma policial e ficamos conversando por cerca de 15 minutos até que as dores se foram, montei na bike, nos despedimos e segui meu caminho.
Algumas pessoas não conseguem entender como alguém encontra forças diante de certas adversidades. Aquele momento foi meu ritual de passagem, depois de passar por aquelas dores eu sabia que nada que pudesse acontecer iria me fazer desistir da prova.
Quando já havia feito 150 km de bike passei pelo santista Motorzinho (único atleta cadeirante da prova) e gritei-lhe:
- Nós vamos conseguir, nós vamos conseguir.
Ele retribuiu-me com um sorriso e desejou-me boa sorte.
Completei o trecho de bike em 7:58 minutos com uma estafa generalizada, tentei correr, mas as pernas não obedeciam, pareciam querer dizer-me:
- Eu não quero mais brincar, quero voltar para casa e ver televisão.
Estava com uma distensão na panturrilha que não me impedia de nadar ou pedalar, mas que comprometia a minha corrida. Tentei trotar de leve, mas logo senti uma fisgada na panturrilha e andei os dois primeiros km.
Atletas passavam por mim e tentavam em vão me incentivar, uma senhora aproximou-se e disse:
- Sabia que nesta rua é proibido caminhar?
- Não, não sabia.- disse-lhe sorrindo.
- Tá vendo, se você pode sorrir, também vai conseguir correr.
- Estou com dores.
- Você consegue, basta dar o primeiro passo.
Comecei a trotar, ela sorriu e acompanhou-me por cerca de 200 metros com um tamanco que fazia um enorme barulho.
- Obrigado, obrigado, obrigado!- eu dizia, tentando conter as lágrimas.
A partir dali comecei a correr sem sentir nenhuma espécie de dor, corri bem até o Km 26 quando passei a sentir ânsia de vômito.
Comecei a andar e após tentar vomitar comecei a ter espasmos por todo o corpo, câimbras nas pernas e uma dolorosa e insuportável câimbra abdominal. Caí e comecei a sentir um enorme frio. Estava entrando em hipotermia, ali naquele momento senti que estava diante do momento mais difícil da prova.
Chorei acreditando verdadeiramente que não iria terminar a prova. Estava quase me entregando quando meu eu interior disse irresoluto:
- Para de viadagem, você vai terminar esta prova nem que chegue se arrastando.
Respirei fundo e levantei-me, mais uma vez não havia ninguém para socorrer-me.
Neste momento eu parecia um idoso sem o controle das suas funções motoras, estava encurvado, com dores absurdas pelo corpo e sentindo um frio absurdo.
Me arrastava com os braços cruzados rente ao corpo, batendo os dentes de frio e repetindo continuamente: - Você vai conseguir,você vai conseguir,você vai conseguir.
Por sorte, um argentino que também estava mal, passou por mim acompanhado por duas garotas que tentavam incentivá-lo.
- Que passa hombre?- perguntou-me
- Estoy muy male hombre, sinto un frio insuportable.
O desconhecido argentino chamou uma das garotas que trazia uma blusa amarrada na cintura e vestiu-me com ela.
- Como faço para devolver-te?
- No te preocupes, después las chicas volven.
Logo, ele se foi e comecei a sentir-me melhor, um pouco em função da blusa que me protegia do frio que sentia e muito mais em função da demonstração de solidariedade.
Eu ainda caminhava cambaleante com os braços cruzados, mas já me sentia bem melhor quando uma atleta perguntou-me o que eu tinha.
- Câimbra, frio, dores, cansaço, medo.- respondi.
Ela parou, lançou-me um sorriso, abriu uma bolsinha e deu-me um relaxante muscular e uma cápsula de sal.
-Não se preocupe você vai ficar bem, não pense em desistir e tome sopa nas tendas.
-Não consigo comer mais nada.
- Você deve tomar a sopa.- disse-me antes de se despedir. Não perguntei seu nome, mas disse-lhe que ela e um argentino que passara antes eram provavelmente meus anjos da guarda .
Andei por mais dois km, tomei sopa, comi pão, castanhas e fui me recuperando paulatinamente. No Km 31 voltei a correr ainda sentindo câimbras, mas sabendo administrá-las.
O público incentivava de diversas maneiras. Para alguns eu dizia que era meu aniversário e estes me saudavam efusivamente.
Quando cruzei a linha de chegada 14 horas, 34 minutos e 58 segundos após a largada, minha namorada deu-me uma faixa na qual estava escrito: Hoje é meu aniversário, completar o Ironman é meu melhor presente.
Nunca me senti tão realizado ao completar uma prova.
Após a chegada, Silvio Marques e Renato Solano me esperavam e gritaram ao mesmo tempo: - Feliz Aniversário Ironman, Feliz Aniversário Ironman.
Na tenda da massagem encontrei-me com Motorzinho, o único atleta cadeirante da prova, aproximei-me e ele me disse com um sorriso e uma alegria contagiantes:
- Nós conseguimos, nós conseguimos. . .
A propósito, não consegui a vaga para o Ironman do Havaí. . .mas, isto não tem a menor importância.
Roberto Melchior
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