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Caminhada de 250 Km em 12 dias
30/10/2007
CAMINHADA DE 12 DIAS – SANTANA DO PARNAÍBA À ÁGUAS DE SÃO PEDRO-SP. OUTUBRO DE 2007. DEPOIMENTO.
Amigos, a decisão de sair da rotina e enfrentar uma atividade incomum, de caminhar 250 km em 12 dias, pode até parecer simples. A decisão pode parecer simples, por que a tarefa certamente não o é. Principalmente se levarmos em consideração a nossa vida sedentária. Envolvidos no nosso dia a dia, trabalho, família, amigos, o anúncio da empreitada resvala em olhares assustados, comentários pouco inspirados. “Você tomou muito sol, estás delirando. E o preparo físico ? Já consultou seu médico ? O que êle comentou sobre este desatino, desta insensatez ? E o Sol ? e a chuva ? Você não chega vivo... Entendo, as pessoas se preocupam conosco, e isto me fez relevar estas e outras incredulidades e manter minha decisão.
Este foi o primeiro grande obstáculo superado. E uma sensação de bem estar apossou-se de mim. É engraçado, não importa em que fase da vida nos encontramos, nada como um desafio para colorir e temperar nossa existência. Contrariar algumas regras também aumentam a adrenalina. E como fazer para não confundir os que nos tomam como um possível modelo de cidadão ? Tenho a esperança que meus netos assim o pensem... Todos temos o direito de sonhar. É, o “Ser Humano” é um bicho engraçado.
Pé na estrada. O primeiro dia é um misto de apreensão e excitação. Tenis, mochila, chapéu, cajado, suando em bicas, caminhando no acostamento de uma rodovia movimentada. E a primeira grande interrogação vem fulminante. Que raios estou fazendo aqui ? Será que fiquei louco mesmo ? Meus colegas estavam com a razão ? O pé ja começou a doer. 3 horas de caminhada e já bebi toda minha água. Será que eu peço um pouco ao meu companheiro ? Não, não vou incomodá-lo. Lá vem um cachorro com cara de poucos amigos. Será que vai me morder ? Um mendigo puxa conversa a medida que caminhamos. Que coisa mais constrangedora... Fazer as necessidades no mato... No segundo dia as bolhas. Sinceramente, nunca tinha experimentado esta dor. Não é possível alguém gostar disto. Ou será que são masoquistas ? Ora, não deixa de ser um comportamento humano !... Mas são tantos ...
No terceiro dia minha energia acabou no meio do trajeto. Queria caminhar mas as pernas não obedeciam. E olha que eu segui todas as recomendações, tomar vitaminas e energéticos e um lauto café da manhã. Excesso de esforço, excesso de luz, sol, calor, suor, mosquitos, a mochila pesava uma tonelada...
Em momentos como estes é que redescobrimos um sentimento que é exclusivo da raça humana. A Solidariedade. Se eu fosse um leão, um lobo ou qualquer outro ente de outras raças existentes no planeta Terra, seria deixado alí, para morrer de inanição. Um pouco dramático, não ? Mas, final do terceiro dia, os pés em carne viva, a temperatura a 40 graus, nível de energia do meu corpo em zero, cabeça zumbindo. Todos, sem excessão, todos os músculos doendo... Momento propício para raciocínios, divagações, pensamentos que nunca viriam no nosso dia a dia de cidadãos urbanos, que vivem num pseudo-conforto.
Numa sintonia mágica, sem nenhum urro extremado de dor exalado por mim, os meus companheiros se acercam e percebem meu embaraço. Um oferece o cantil, outra tira o meu tenis e passa um pó anestesiante no meu pé, um comprimidinho de dorflex aparece na mão de uma senhora, que depois vim a saber, era uma enfermeira. Todos expontaneamente, sem segundas intenções, pois não nos conhecíamos antes da excursão, e jamais nos veremos depois. Vêem ajudar, cedendo seus sucos de frutas gelados, barras de cereias, e energéticos. Um ambiente sem subterfúgios, onde todos, de forma livre, torcem e vibram para que todos cumpram a meta que é chegar ao fim deste caminho, para, logo, iniciar outro. A alegria é estar no caminho, muito mais do que concluí-lo. Descobre-se que a alegria maior é construir e a menor é usufruir. As duas se complementam. Conversas ao pé da fogueira, sobre ciências exotéricas, mesmo para aqueles que não as tem em alta conta, prendem a nossa atenção. Cada um dando sua contribuição e opinião sobre a origem do universo, galaxias, física quântica, teologia, etc , etc... Assuntos complicados ? Absolutamente não. Vida simples, vida muito simples e feliz. Foram dias de sentimentos alegres, de escoteiros mirins.
Pouco, muito pouco, necessitamos para um equilíbrio prazeiroso com nosso mundo e semelhantes. A solidariedade, tão desnecessária no nosso mundo autosuficiente, é uma redescoberta que nos faz crer novamente. O prazer de ser solidário é pleno. Desejo ardorosamente que todos encontrem este entendimento. Seres iluminados nos ensinam isto há milhares de anos. Mas para aprender é necessáfio sentir.
Sim, a humanidade tem solução. Aquecimento global, Bins Ladens, Mrs. Arbustos ( Bush) e outros dementes que me perdoem, mas a vida pode e deve ser mais simples.
Um abração a todos.
Paulo Roberto Pedroso de Oliveira
Jundiaí, 30 de outubro de 2007.
Outras informações:
Paulo Roberto Pedroso de Oliveira
(11)99359080
prpasc@gmail.com



